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Milhares de desamparados

Mais de 113 mil crianças e adolescentes no Brasil perderam o pai, a mãe, ou ambos, vitimados pela covid-19 entre março de 2020 e abril de 2021

 (crédito: Carlos Vieira/CB/DA Press)(crédito: Carlos Vieira/CB/DA Press)

A covid-19 mostrou, até agora, que crianças e adolescentes estão longe de serem alvos preferenciais. Embora eles não sejam imunes à doença, casos graves e mortes são pouco comuns. Mas nem por isso meninos e meninas escapam dos impactos do coronavírus. Ao contrário. A vida de milhares deles mudou radicalmente para pior na pandemia, com traumas que devem se estender pela vida inteira.

Mais de 113 mil crianças e adolescentes no Brasil perderam o pai, a mãe, ou ambos, vitimados pela covid-19 entre março de 2020 e abril de 2021. O número dispara para 130 mil se forem considerados os que tinham avós e avôs como principal cuidador. Os dados estão num estudo da revista científica Lancet. É inimaginável o sofrimento que estão passando esses órfãos, perdendo abruptamente as pessoas mais importantes da sua vida.

Além do impacto emocional, há o financeiro, pois muitos desses pais ou avós que morreram eram provedores da família, ou seja, meninos e meninas ficaram desamparados, também, economicamente.
A pesquisadora que liderou o estudo, Susan Hillis, detalhou, em entrevista à BBC News, a extensão da tragédia da covid-19 para esse público. “Nossos dados são muito claros em mostrar que o Brasil é o segundo país com maior número de órfãos, atrás apenas do México”, afirmou. “Só posso dizer que existe um chamado urgente para que o país previna mortes e se prepare para proteger as crianças que vão precisar.”

Ela apontou três estratégias necessárias. A primeira, prevenir as mortes de pais e cuidadores, com vacinação e medidas como distanciamento social e uso de máscara. A segunda, preparar parentes ou famílias substitutas ou adotivas para receber esses órfãos, porque a permanência deles em instituições faz aumentar o risco de atrasos cognitivos permanentes. E a terceira, a proteção social, pois, conforme acentuou Hillis, crianças que crescem sem pai ou mãe para zelar por elas correm maior risco de violência sexual, física e emocional. Nessa proteção está, também, o fortalecimento econômico. A pesquisadora defende que menores de idade em situação de vulnerabilidade financeira sejam inscritos em programas de transferência de renda.

No Congresso, há projetos para ajuda econômica a órfãos carentes. Na Câmara, o PL 1.305/21 determina que o Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS) destine pensão individual e mensal, de um salário mínimo, a esse público. O benefício seria concedido até os 18 anos. No Senado, tramita o PL 2.180/2021, que institui o Fundo de Amparo aos Órfãos da Covid-19 (Facovid).

O governo também fala em criar um benefício na reformulação do Bolsa Família. Todas essas iniciativas, porém, estão apenas no papel. É urgente que se concretizem. Meninos e meninas, já abalados pelas perdas, precisam, imediatamente, desse socorro.

Alô Valparaíso/*Com as informações da CB